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PT - Idioma: Português (Brasil)
MatemáticaEnsino superior

Teste de hipóteses e valor-p - explicado passo a passo com um teste às cegas

· 19 min de leitura

Em resumo

Um teste de hipóteses verifica se um resultado seria surpreendente se não houvesse nada de especial - essa é a hipótese nula H₀. O valor-p é a probabilidade, supondo H₀ verdadeira, de um resultado pelo menos tão extremo quanto o observado. Se p ≤ α (o nível de significância fixado antes, em geral 0,05), rejeita-se H₀. Senão, não há evidência para rejeitá-la, o que não prova que seja verdadeira.

Conceitos-chave

Hipótese nula H₀
A afirmação da qual o teste parte - em geral "não há efeito" ou "é puro acaso", como p = 0,5 para quem está chutando.
Hipótese alternativa H₁
O que suspeitamos no lugar dela, por exemplo p > 0,5.
Estatística de teste
Um número calculado com a amostra no qual a decisão se baseia, como o número de acertos.
Valor-p
A probabilidade, supondo H₀ verdadeira, de um resultado pelo menos tão extremo quanto o observado.
Nível de significância α
O limite escolhido antes do teste - rejeita-se H₀ quando p ≤ α. Um valor comum é 0,05.
Erros tipo I e tipo II
Rejeitar H₀ quando ela é verdadeira (tipo I) e não rejeitá-la quando é falsa (tipo II).

O que você acha?

Júlia diz que sente a diferença entre a água da torneira e a água mineral pelo gosto. Num teste às cegas, ela acerta o tipo de água em 1515 de 2020 copos. Se estivesse só chutando, com que frequência ela conseguiria um resultado igual ou melhor?

A ideia: será que foi sorte?

Júlia diz que sente pelo gosto a diferença entre a água da torneira e a água mineral. Para conferir, uma amiga enche 2020 copos, cada um, por sorteio, com uma das duas águas. Júlia não vê qual é qual e, copo a copo, diz que água está bebendo. Ela acerta 1515.

Isso prova que ela tem um paladar apurado? Ainda não. Alguém que só chuta acerta cada copo com probabilidade 12\frac{1}{2} e também pode dar sorte. Então a pergunta é: se Júlia estivesse só chutando, quão surpreendentes seriam 1515 acertos?

Todo teste de hipóteses se apoia nessa pergunta:

  • supomos que nada de especial está acontecendo: essa é a hipótese nula H0H_0 (aqui, Júlia está chutando),
  • calculamos qual seria, sob essa suposição, a probabilidade de um resultado pelo menos tão extremo quanto o observado: esse é o valor-p,
  • se essa probabilidade for muito pequena, fica difícil continuar acreditando na suposição, e nós a rejeitamos.

Um valor-p pequeno não diz que Júlia com certeza sente a diferença. Diz apenas que só chutando seria raro chegar a um resultado assim. O estatístico Ronald Fisher explicou o teste de hipóteses com uma história parecida: a de uma senhora que dizia perceber pelo gosto se, na xícara, tinham posto primeiro o chá ou o leite.

Chute ou paladar? O teste passo a passo

Avance pela animação com os botões ou com as setas do teclado. Primeiro você vê os 2020 copos de Júlia e, depois, os resultados de 10001000 pessoas que só chutam e fazem o mesmo teste (numa simulação de computador).

a provadora: 15 acertos em 20

Passo 1 de 7
Passos da animação. Use as setas do teclado para avançar e voltar.

O teste às cegas: 20 copos, cada um cheio por sorteio com água da torneira ou mineral. Um visto indica que Júlia acertou a água. Ela acertou 15 dos 20.

O teste pode errar de dois jeitos. Se Júlia está chutando, ainda assim ela cai na região crítica com probabilidade 0,0210{,}021: aí rejeitaríamos uma H0H_0 verdadeira, um erro tipo I. Se ela realmente sente a diferença, pode mesmo assim acertar menos de 1515: um erro tipo II. Com o mesmo α, um teste mais longo, com mais copos, torna esse segundo erro menos provável.

Experimente: copos, acertos e α

Com os controles deslizantes, você escolhe o número de copos nn e o número de acertos kk. As barras mostram a probabilidade de cada resultado para quem está chutando, e as barras preenchidas somam o valor-p P(X≥k)P(X \ge k). Escolha α para ver a região crítica e a decisão. Depois teste algumas centenas de pessoas que chutam e compare a proporção das que acertam kk ou mais com o valor-p.

5101520região crítica
n = 20
k = 15
Nível de significância α
valor-p = P(X ≥ k)
0,021
região crítica
X ≥ 15
decisão
rejeita-se H₀

pessoas testadas: 0

Repare que:

  • com n=20n = 20, k=15k = 15 dá p=0,021p = 0{,}021, mas k=14k = 14 já dá p=0,058p = 0{,}058, mais que 0,050{,}05,
  • a mesma proporção de acertos pesa mais num teste mais longo: 66 de 88 copos dá p=0,145p = 0{,}145, 1515 de 2020 dá p=0,021p = 0{,}021 e 3030 de 4040 dá p=0,001p = 0{,}001,
  • um α menor encolhe a região crítica: com n=20n = 20 e α=0,01\alpha = 0{,}01, ela é X≥16X \ge 16, então 1515 acertos já não bastariam,
  • com só 55 copos e α=0,01\alpha = 0{,}01, não existe região crítica: até 55 de 55 dá p=0,031p = 0{,}031,
  • quanto mais pessoas você testar, mais a proporção das que acertam kk ou mais se aproxima do valor-p.

A definição

Hipóteses. Um teste de hipóteses confronta duas afirmações. A hipótese nula H0H_0 é a afirmação da qual partimos: em geral “não há efeito” ou um valor determinado, como p=0,5p = 0{,}5 ou μ=1000\mu = 1000 g. A hipótese alternativa H1H_1 é o que suspeitamos no lugar dela, por exemplo p>0,5p > 0{,}5, μ<1000\mu < 1000 g ou μ≠500\mu \ne 500 mL.

Estatística de teste. Um número calculado com a amostra, como o número de acertos XX. Precisamos saber como ele se distribui quando H0H_0 é verdadeira. Se cada uma de nn tentativas independentes é um sucesso com probabilidade p0p_0, o número de sucessos segue a distribuição binomial:

X∼B(n,p0)X \sim B(n, p_0)

Valor-p. A probabilidade, supondo H0H_0 verdadeira, de a estatística de teste dar um valor pelo menos tão extremo quanto o observado, no sentido indicado por H1H_1. Para H1:p>p0H_1: p > p_0 e kk sucessos, ele é

p=P(X≥k).p = P(X \ge k).

Nível de significância e decisão. Antes de olhar os dados, escolhemos o nível de significância α\alpha. O valor tradicional é 0,050{,}05; também se usam 0,010{,}01 e 0,100{,}10. Depois:

  • se p≤αp \le \alpha, rejeita-se H0H_0 em favor de H1H_1: o resultado é estatisticamente significativo,
  • se p>αp > \alpha, não há evidência suficiente para rejeitar H0H_0. Isso não prova que H0H_0 seja verdadeira: os dados apenas não são uma evidência forte o bastante contra ela.

Região crítica. Os valores da estatística de teste para os quais rejeitamos H0H_0. No teste dos copos, com n=20n = 20 e α=0,05\alpha = 0{,}05, ela é X≥15X \ge 15, porque P(X≥15)=0,021≤0,05P(X \ge 15) = 0{,}021 \le 0{,}05, mas P(X≥14)=0,058>0,05P(X \ge 14) = 0{,}058 > 0{,}05. Rejeitar H0H_0 é o mesmo que a estatística de teste cair na região crítica.

Dois tipos de erro.

  • O erro tipo I é rejeitar H0H_0 quando ela é verdadeira. Sua probabilidade é no máximo α\alpha; no teste dos copos, é P(X≥15)=0,021P(X \ge 15) = 0{,}021.
  • O erro tipo II é não rejeitar H0H_0 quando ela é falsa. Sua probabilidade se escreve β\beta, e 1−β1 - \beta é o poder do teste: na animação, 0,8040{,}804 para alguém que acerta 44 de cada 55 copos.

Testes unilaterais e bilaterais. Com H1:p>p0H_1: p > p_0 ou H1:μ<μ0H_1: \mu < \mu_0, o teste é unilateral: só contam como extremos os resultados afastados para um lado. Com H1:μ≠μ0H_1: \mu \ne \mu_0, ele é bilateral: contam os resultados afastados para qualquer um dos lados. Se a estatística tem distribuição simétrica, como o zz abaixo, o valor-p bilateral é o dobro da área de uma cauda.

Teste para a média (teste z). Quando o desvio padrão σ\sigma é conhecido, a média xˉ\bar{x} de uma amostra de tamanho nn é comparada com μ0\mu_0 por meio de

z=xˉ−μ0σ/n.z = \frac{\bar{x} - \mu_0}{\sigma / \sqrt{n}}.

O denominador σ/n\sigma/\sqrt{n} é o erro padrão da média: as médias de amostras variam menos que os valores isolados. Se H0H_0 é verdadeira e a variável tem distribuição normal, zz segue a normal padrão N(0,1)N(0, 1), então o valor-p sai da tabela de Φ(z)=P(Z<z)\Phi(z) = P(Z < z). Quando σ\sigma é desconhecido e estimado pela amostra, usa-se o teste t de Student.

zz Φ(z)\Phi(z)
0,40{,}4 0,65540{,}6554
1,6451{,}645 0,95000{,}9500
1,81{,}8 0,96410{,}9641
1,961{,}96 0,97500{,}9750
22 0,97720{,}9772
2,3262{,}326 0,99000{,}9900
2,5762{,}576 0,99500{,}9950

Assim, com α=0,05\alpha = 0{,}05, um teste unilateral rejeita H0H_0 quando z≥1,645z \ge 1{,}645 (ou z≤−1,645z \le -1{,}645, se H1:μ<μ0H_1: \mu < \mu_0), e um bilateral quando z≥1,96z \ge 1{,}96 ou z≤−1,96z \le -1{,}96. Com α=0,01\alpha = 0{,}01, os limites são 2,3262{,}326 e 2,5762{,}576.

Exemplo 1: um cachorro e duas caixas

Um cachorro está aprendendo a achar um petisco pelo faro. Em cada uma de 1010 tentativas, o petisco é escondido por sorteio numa de duas caixas, e o cachorro escolhe a caixa certa 99 vezes. Teste, ao nível de significância de 0,050{,}05, se o cachorro acerta mais do que o acaso explicaria.

Passo 1. Escrevemos as hipóteses

Um cachorro que só chuta escolhe a caixa certa com probabilidade 12\frac{1}{2}, e suspeitamos que ele faz melhor que isso.

H0:p=0,5H1:p>0,5\begin{aligned} H_0&: p = 0{,}5 \\ H_1&: p > 0{,}5 \end{aligned}

Passo 2. Definimos a estatística de teste

A estatística de teste é o número de acertos XX. Se H0H_0 for verdadeira, ela segue a distribuição binomial.

X∼B(10;0,5)X \sim B(10; 0{,}5)

Passo 3. Escrevemos o valor-p como uma soma

Os resultados pelo menos tão extremos quanto 99 acertos são 99 e 1010 acertos.

p=P(X=9)+P(X=10)p = P(X = 9) + P(X = 10)

Passo 4. Calculamos as duas probabilidades

Cada sequência de 1010 escolhas tem probabilidade 0,510=110240{,}5^{10} = \frac{1}{1024}. Há (109)=10\binom{10}{9} = 10 maneiras de acertar exatamente 99 e só uma de acertar 1010.

P(X=9)=101024P(X=10)=11024\begin{aligned} P(X = 9) &= \frac{10}{1024} \\ P(X = 10) &= \frac{1}{1024} \end{aligned}

Passo 5. Somamos

Somamos as duas probabilidades.

p=101024+11024=111024≈0,0107\begin{aligned} p &= \frac{10}{1024} + \frac{1}{1024} \\ &= \frac{11}{1024} \\ &\approx \boxed{0{,}0107} \end{aligned}

Passo 6. Comparamos com o nível de significância

Comparamos o valor-p com α=0,05\alpha = 0{,}05.

0,0107≤0,050{,}0107 \le 0{,}05

Resposta

p≈0,011≤0,05p \approx 0{,}011 \le 0{,}05, então rejeita-se H0H_0. Ao nível de 0,050{,}05, o cachorro escolhe a caixa certa com mais frequência do que o chute explicaria.

Exemplo 2: a máquina está pondo pouca farinha nos pacotes?

Uma máquina deveria encher pacotes com 10001000 g de farinha em média, e o desvio padrão da massa é σ=5\sigma = 5 g. Um fiscal pesa 2525 pacotes e encontra média xˉ=998\bar{x} = 998 g. Teste, ao nível de 0,050{,}05, se a máquina põe, em média, menos farinha do que deveria. A decisão seria a mesma ao nível de 0,010{,}01?

Passo 1. Escrevemos as hipóteses

Suspeitamos que a média seja menor que 10001000 g, então o teste é unilateral.

H0:μ=1000H1:μ<1000\begin{aligned} H_0&: \mu = 1000 \\ H_1&: \mu < 1000 \end{aligned}

Passo 2. Calculamos o erro padrão

Dividimos o desvio padrão pela raiz quadrada do tamanho da amostra.

σn=525=1\frac{\sigma}{\sqrt{n}} = \frac{5}{\sqrt{25}} = \boxed{1}

Passo 3. Calculamos z

Contamos a quantos erros padrão a média da amostra está de 10001000 g.

z=998−10001=−2\begin{aligned} z &= \frac{998 - 1000}{1} \\ &= \boxed{-2} \end{aligned}

Passo 4. Calculamos o valor-p

Aqui, extremas são as médias pequenas, então precisamos da área à esquerda de −2-2. A tabela dá Φ(2)=0,9772\Phi(2) = 0{,}9772.

p=Φ(−2)=1−Φ(2)=1−0,9772=0,0228\begin{aligned} p &= \Phi(-2) \\ &= 1 - \Phi(2) \\ &= 1 - 0{,}9772 \\ &= 0{,}0228 \end{aligned}

Passo 5. Comparamos com os dois níveis

Comparamos o valor-p com α=0,05\alpha = 0{,}05 e com α=0,01\alpha = 0{,}01.

0,0228≤0,050,0228>0,01\begin{aligned} 0{,}0228 &\le 0{,}05 \\ 0{,}0228 &> 0{,}01 \end{aligned}

Resposta

p≈0,0228p \approx 0{,}0228. Ao nível de 0,050{,}05, rejeita-se H0H_0: a máquina põe, em média, menos farinha do que deveria. Ao nível de 0,010{,}01, não há evidência suficiente para rejeitar H0H_0 - a decisão depende de α, e é por isso que α é escolhido antes do teste.

Sua vez

Garrafas de suco trazem 500500 mL no rótulo, e a máquina que as enche tem desvio padrão σ=6\sigma = 6 mL. Uma amostra de 3636 garrafas tem média xˉ=501,8\bar{x} = 501{,}8 mL. Teste, ao nível de 0,050{,}05, se a média é diferente de 500500 mL, para mais ou para menos.

Dicamostrar

O teste é bilateral: H1:μ≠500H_1: \mu \ne 500. Calcule o erro padrão e zz; depois, p=2⋅(1−Φ(z))p = 2 \cdot (1 - \Phi(z)) para um zz positivo. Da tabela: Φ(1,8)=0,9641\Phi(1{,}8) = 0{,}9641.

Resoluçãotente resolver por conta própria primeiro

Passo 1. Escrevemos as hipóteses

Importaria tanto uma média alta demais quanto uma baixa demais, então o teste é bilateral.

H0:μ=500H1:μ≠500\begin{aligned} H_0&: \mu = 500 \\ H_1&: \mu \ne 500 \end{aligned}

Passo 2. Calculamos o erro padrão

Dividimos o desvio padrão pela raiz quadrada do tamanho da amostra.

σn=636=1\frac{\sigma}{\sqrt{n}} = \frac{6}{\sqrt{36}} = \boxed{1}

Passo 3. Calculamos z

Contamos a quantos erros padrão a média da amostra está de 500500 mL.

z=501,8−5001=1,8\begin{aligned} z &= \frac{501{,}8 - 500}{1} \\ &= \boxed{1{,}8} \end{aligned}

Passo 4. Calculamos a área de uma cauda

Obtemos a área à direita de 1,81{,}8 a partir do valor da tabela.

P(Z≥1,8)=1−0,9641=0,0359\begin{aligned} P(Z \ge 1{,}8) &= 1 - 0{,}9641 \\ &= 0{,}0359 \end{aligned}

Passo 5. Multiplicamos por dois

Num teste bilateral, uma média igualmente afastada abaixo de 500500 mL também seria extrema, então contam as duas caudas.

p=2⋅0,0359=0,0718\begin{aligned} p &= 2 \cdot 0{,}0359 \\ &= 0{,}0718 \end{aligned}

Passo 6. Comparamos com o nível de significância

Comparamos o valor-p com α=0,05\alpha = 0{,}05.

0,0718>0,050{,}0718 > 0{,}05

Resposta

p≈0,072>0,05p \approx 0{,}072 > 0{,}05, então não há evidência suficiente para rejeitar H0H_0. A amostra não mostra que a média é diferente de 500500 mL - mas também não prova que ela seja exatamente 500500 mL.

Erros comuns

  • “O valor-p é a probabilidade de H₀ ser verdadeira.” Não: o valor-p é calculado supondo H0H_0 verdadeira. Ele diz quão surpreendentes seriam os dados se H0H_0 valesse, e não quão provável é H0H_0. Um valor-p de 0,0210{,}021 não significa 2,1% de chance de Júlia estar chutando.
  • “p > α prova H₀.” Não rejeitar não é o mesmo que provar. Com 1313 acertos em 2020 (p=0,132p = 0{,}132), Júlia pode ter uma habilidade real, só que menor - um teste de 2020 copos é curto demais para mostrá-la.
  • Esquecer o “pelo menos tão extremo”. O valor-p é uma cauda inteira, não um único resultado. Com 1414 acertos em 2020, P(X=14)=0,037P(X = 14) = 0{,}037 parece menor que 0,050{,}05, mas o valor-p P(X≥14)=0,058P(X \ge 14) = 0{,}058 é maior.
  • Escolher α ou o tipo de teste depois de ver os dados. Os dois são definidos antes do teste. Escolhê-los depois, ou testar uma análise atrás da outra até alguma dar p≤0,05p \le 0{,}05, torna um alarme falso mais provável.
  • “Significativo” quer dizer “importante”. Um resultado significativo seria improvável se H0H_0 fosse verdadeira, mas o efeito em si pode ser minúsculo: numa amostra grande o bastante, até uma diferença muito pequena dá um valor-p pequeno. O tamanho do efeito é outra questão.

No ensino médio, no Enem e na faculdade

O teste de hipóteses não aparece na BNCC do ensino médio. Em probabilidade e estatística, as habilidades da BNCC falam em analisar amostras de pesquisas divulgadas pela mídia, planejar e executar pesquisas amostrais e calcular e interpretar medidas de tendência central e de dispersão (amplitude, variância e desvio padrão) - por exemplo, nas habilidades EM13MAT202 e EM13MAT316. A Matriz de Referência do Enem também não inclui testes: em estatística e probabilidade, ela lista representação e análise de dados, medidas de tendência central, desvios e variância e noções de probabilidade.

Na faculdade, o teste de hipóteses faz parte da inferência estatística. No livro aberto de Probabilidade e Estatística da UFRGS, uma tradução e adaptação do OpenIntro Statistics, ele aparece no capítulo “Fundamentos para Inferência”, depois da variabilidade das estimativas e dos intervalos de confiança.

Teste o que você aprendeu

Teste seus conhecimentos

Um teste dá p=0,03p = 0{,}03, e o nível de significância é α=0,05\alpha = 0{,}05. Qual é a decisão?

O que significa p=0,03p = 0{,}03?

Uma moeda é lançada 55 vezes e dá cara todas as vezes. Com H0:p=0,5H_0: p = 0{,}5 e H1:p>0,5H_1: p > 0{,}5, qual é o valor-p?

Num teste z bilateral, sai z=2z = 2, e a tabela dá Φ(2)=0,9772\Phi(2) = 0{,}9772. Qual é o valor-p?

O que é um erro tipo I?

Flashcards para revisão

Vire cada cartão e diga se você sabia a resposta. Os que você não sabia voltam para o fim do baralho. No guia Repetição espaçada, você descobre por que vale a pena revê-los daqui a alguns dias.

Flashcards

  1. O que é a hipótese nula H0H_0?

    A afirmação da qual o teste parte: em geral “não há efeito” ou um valor determinado, como p=0,5p = 0{,}5 para quem está chutando.
  2. O que é o valor-p?

    A probabilidade, supondo H0H_0 verdadeira, de um resultado pelo menos tão extremo quanto o observado.
  3. Quando se rejeita H0H_0?

    Quando p≤αp \le \alpha, com o nível de significância α escolhido antes do teste - muitas vezes 0,050{,}05.
  4. O que significa p>αp > \alpha?

    Que não há evidência suficiente para rejeitar H0H_0. Isso não prova que H0H_0 seja verdadeira.
  5. O valor-p é a probabilidade de H0H_0 ser verdadeira?

    Não. Ele é calculado supondo H0H_0 verdadeira, então diz quão surpreendentes seriam os dados sob H0H_0.
  6. O que é a região crítica?

    Os valores da estatística de teste para os quais se rejeita H0H_0 - com 2020 copos e α=0,05\alpha = 0{,}05, X≥15X \ge 15.
  7. O que são os erros tipo I e tipo II?

    Tipo I: rejeitar H0H_0 quando ela é verdadeira, com probabilidade no máximo α. Tipo II: não rejeitar H0H_0 quando ela é falsa.
  8. O que é o poder de um teste?

    A probabilidade de rejeitar H0H_0 quando ela é falsa, 1−β1 - \beta.
  9. Como se calcula zz num teste para a média?

    z=xˉ−μ0σ/nz = \frac{\bar{x} - \mu_0}{\sigma / \sqrt{n}} - no denominador fica o erro padrão σ/n\sigma/\sqrt{n}.
  10. Como se obtém o valor-p de um teste z bilateral?

    Dobra-se a área de uma cauda: p=2⋅(1−Φ(z))p = 2 \cdot (1 - \Phi(z)) para um zz positivo.

Fontes

Conferimos as informações desta página nestas fontes. Todas podem ser reutilizadas livremente: têm licença aberta ou não são protegidas por direitos autorais.

  1. UFRGS - Livro de Probabilidade e Estatística EAD (tradução e adaptação do OpenIntro Statistics), 4 Fundamentos para Inferência (hipótese nula e alternativa; não rejeitar H₀ não é aceitá-la; p-valor como probabilidade de dados pelo menos tão favoráveis a H₁ se H₀ for verdadeira; erros tipo I e II; nível tradicional 0,05, ou 0,01; testes unilaterais e bilaterais, com as duas caudas no p-valor bilateral; trocar o tipo de teste depois de ver os dados infla o erro tipo I; erro padrão; significância estatística versus prática) · CC BY-SA 3.0
  2. UFRGS - Livro de Probabilidade e Estatística EAD, 3.4 Distribuição binomial (probabilidade de k sucessos em n tentativas independentes) · CC BY-SA 3.0
  3. Barth, Lourenço - O P ainda tem valor?, Revista de Administração de Empresas, 2020 (valor-p não mede a importância de um efeito; efeito desprezível pode ser significativo numa amostra grande; p-hacking) · CC BY 4.0
  4. Andreu et al. - O valor de p é adequadamente interpretado pelos profissionais de terapia intensiva?, Revista Brasileira de Terapia Intensiva, 2021 (valor-p: resultado igual ou mais extremo que o observado; a falácia de tomá-lo como a probabilidade de H₀ ser verdadeira) · CC BY 4.0
  5. Lopes et al. - Bioestatísticas: conceitos fundamentais e aplicações práticas, Revista Brasileira de Oftalmologia, 2014 (hipótese nula de não haver diferença e hipótese alternativa; erro tipo I ou α e erro tipo II ou β) · CC BY 4.0
  6. MEC - Base Nacional Comum Curricular (BNCC), habilidades EM13MAT102, EM13MAT202, EM13MAT316 e EM13MAT406 (pesquisa amostral, medidas de tendência central e de dispersão; sem teste de hipóteses) · documento oficial
  7. Inep - Matriz de Referência para o Enem (conhecimentos de estatística e probabilidade: representação e análise de dados, medidas de tendência central, desvios e variância, noções de probabilidade) · documento oficial
  8. David M. Lane - Online Statistics Education, Introduction to Hypothesis Testing (em inglês: a probabilidade de acertar tanto ou mais num teste de degustação só chutando; Fisher e a história da senhora que provava chá) · domínio público
  9. Danielle Navarro - Learning Statistics with R, 13.1 The one-sample z-test (em inglês: z = (x̄ − μ₀)/(σ/√n); valores críticos 1,645, 1,96, 2,326 e 2,576) · CC BY-SA 4.0
  10. Wikipédia - Valor-p (probabilidade de um resultado pelo menos tão extremo quanto o observado, supondo H₀ verdadeira; não é a probabilidade de H₀ ser verdadeira) · CC BY-SA 4.0
  11. Wikipédia - Teste de hipóteses (região crítica, erro tipo I com probabilidade α, testes unilaterais e bilaterais) · CC BY-SA 4.0
  12. Wikipédia - Teste t de Student (usado quando a variância da população é desconhecida) · CC BY-SA 4.0
  13. Wikipedia - Lady tasting tea (em inglês: o experimento de R. A. Fisher com chá em The Design of Experiments, 1935) · CC BY-SA 4.0

Mais explicações