Teste de hipóteses e valor-p - explicado passo a passo com um teste às cegas
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Em resumo
Um teste de hipóteses verifica se um resultado seria surpreendente se não houvesse nada de especial - essa é a hipótese nula H₀. O valor-p é a probabilidade, supondo H₀ verdadeira, de um resultado pelo menos tão extremo quanto o observado. Se p ≤ α (o nível de significância fixado antes, em geral 0,05), rejeita-se H₀. Senão, não há evidência para rejeitá-la, o que não prova que seja verdadeira.
Conceitos-chave
- Hipótese nula H₀
- A afirmação da qual o teste parte - em geral "não há efeito" ou "é puro acaso", como p = 0,5 para quem está chutando.
- Hipótese alternativa H₁
- O que suspeitamos no lugar dela, por exemplo p > 0,5.
- Estatística de teste
- Um número calculado com a amostra no qual a decisão se baseia, como o número de acertos.
- Valor-p
- A probabilidade, supondo H₀ verdadeira, de um resultado pelo menos tão extremo quanto o observado.
- Nível de significância α
- O limite escolhido antes do teste - rejeita-se H₀ quando p ≤ α. Um valor comum é 0,05.
- Erros tipo I e tipo II
- Rejeitar H₀ quando ela é verdadeira (tipo I) e não rejeitá-la quando é falsa (tipo II).
O que você acha?
Júlia diz que sente a diferença entre a água da torneira e a água mineral pelo gosto. Num teste às cegas, ela acerta o tipo de água em de copos. Se estivesse só chutando, com que frequência ela conseguiria um resultado igual ou melhor?
Quem chuta acerta cada copo com probabilidade , como num lançamento de moeda, então o número de acertos segue a distribuição binomial . A probabilidade de acertos ou mais é , ou seja, umas vezes em . Das pessoas simuladas que chutam na animação abaixo, foram tão bem quanto ela ou melhor. Essa probabilidade é o valor-p do resultado de Júlia.
A ideia: será que foi sorte?
Júlia diz que sente pelo gosto a diferença entre a água da torneira e a água mineral. Para conferir, uma amiga enche copos, cada um, por sorteio, com uma das duas águas. Júlia não vê qual é qual e, copo a copo, diz que água está bebendo. Ela acerta .
Isso prova que ela tem um paladar apurado? Ainda não. Alguém que só chuta acerta cada copo com probabilidade e também pode dar sorte. Então a pergunta é: se Júlia estivesse só chutando, quão surpreendentes seriam acertos?
Todo teste de hipóteses se apoia nessa pergunta:
- supomos que nada de especial está acontecendo: essa é a hipótese nula (aqui, Júlia está chutando),
- calculamos qual seria, sob essa suposição, a probabilidade de um resultado pelo menos tão extremo quanto o observado: esse é o valor-p,
- se essa probabilidade for muito pequena, fica difícil continuar acreditando na suposição, e nós a rejeitamos.
Um valor-p pequeno não diz que Júlia com certeza sente a diferença. Diz apenas que só chutando seria raro chegar a um resultado assim. O estatístico Ronald Fisher explicou o teste de hipóteses com uma história parecida: a de uma senhora que dizia perceber pelo gosto se, na xícara, tinham posto primeiro o chá ou o leite.
Chute ou paladar? O teste passo a passo
Avance pela animação com os botões ou com as setas do teclado. Primeiro você vê os copos de Júlia e, depois, os resultados de pessoas que só chutam e fazem o mesmo teste (numa simulação de computador).
a provadora: 15 acertos em 20
O teste às cegas: 20 copos, cada um cheio por sorteio com água da torneira ou mineral. Um visto indica que Júlia acertou a água. Ela acertou 15 dos 20.
O teste pode errar de dois jeitos. Se Júlia está chutando, ainda assim ela cai na região crítica com probabilidade : aí rejeitaríamos uma verdadeira, um erro tipo I. Se ela realmente sente a diferença, pode mesmo assim acertar menos de : um erro tipo II. Com o mesmo α, um teste mais longo, com mais copos, torna esse segundo erro menos provável.
Experimente: copos, acertos e α
Com os controles deslizantes, você escolhe o número de copos e o número de acertos . As barras mostram a probabilidade de cada resultado para quem está chutando, e as barras preenchidas somam o valor-p . Escolha α para ver a região crítica e a decisão. Depois teste algumas centenas de pessoas que chutam e compare a proporção das que acertam ou mais com o valor-p.
- valor-p = P(X ≥ k)
- 0,021
- região crítica
- X ≥ 15
- decisão
- rejeita-se H₀
pessoas testadas: 0
Repare que:
- com , dá , mas já dá , mais que ,
- a mesma proporção de acertos pesa mais num teste mais longo: de copos dá , de dá e de dá ,
- um α menor encolhe a região crítica: com e , ela é , então acertos já não bastariam,
- com só copos e , não existe região crítica: até de dá ,
- quanto mais pessoas você testar, mais a proporção das que acertam ou mais se aproxima do valor-p.
A definição
Hipóteses. Um teste de hipóteses confronta duas afirmações. A hipótese nula é a afirmação da qual partimos: em geral “não há efeito” ou um valor determinado, como ou g. A hipótese alternativa é o que suspeitamos no lugar dela, por exemplo , g ou mL.
Estatística de teste. Um número calculado com a amostra, como o número de acertos . Precisamos saber como ele se distribui quando é verdadeira. Se cada uma de tentativas independentes é um sucesso com probabilidade , o número de sucessos segue a distribuição binomial:
Valor-p. A probabilidade, supondo verdadeira, de a estatística de teste dar um valor pelo menos tão extremo quanto o observado, no sentido indicado por . Para e sucessos, ele é
Nível de significância e decisão. Antes de olhar os dados, escolhemos o nível de significância . O valor tradicional é ; também se usam e . Depois:
- se , rejeita-se em favor de : o resultado é estatisticamente significativo,
- se , não há evidência suficiente para rejeitar . Isso não prova que seja verdadeira: os dados apenas não são uma evidência forte o bastante contra ela.
Região crítica. Os valores da estatística de teste para os quais rejeitamos . No teste dos copos, com e , ela é , porque , mas . Rejeitar é o mesmo que a estatística de teste cair na região crítica.
Dois tipos de erro.
- O erro tipo I é rejeitar quando ela é verdadeira. Sua probabilidade é no máximo ; no teste dos copos, é .
- O erro tipo II é não rejeitar quando ela é falsa. Sua probabilidade se escreve , e é o poder do teste: na animação, para alguém que acerta de cada copos.
Testes unilaterais e bilaterais. Com ou , o teste é unilateral: só contam como extremos os resultados afastados para um lado. Com , ele é bilateral: contam os resultados afastados para qualquer um dos lados. Se a estatística tem distribuição simétrica, como o abaixo, o valor-p bilateral é o dobro da área de uma cauda.
Teste para a média (teste z). Quando o desvio padrão é conhecido, a média de uma amostra de tamanho é comparada com por meio de
O denominador é o erro padrão da média: as médias de amostras variam menos que os valores isolados. Se é verdadeira e a variável tem distribuição normal, segue a normal padrão , então o valor-p sai da tabela de . Quando é desconhecido e estimado pela amostra, usa-se o teste t de Student.
Assim, com , um teste unilateral rejeita quando (ou , se ), e um bilateral quando ou . Com , os limites são e .
Exemplo 1: um cachorro e duas caixas
Um cachorro está aprendendo a achar um petisco pelo faro. Em cada uma de tentativas, o petisco é escondido por sorteio numa de duas caixas, e o cachorro escolhe a caixa certa vezes. Teste, ao nível de significância de , se o cachorro acerta mais do que o acaso explicaria.
Passo 1. Escrevemos as hipóteses
Um cachorro que só chuta escolhe a caixa certa com probabilidade , e suspeitamos que ele faz melhor que isso.
Passo 2. Definimos a estatística de teste
A estatística de teste é o número de acertos . Se for verdadeira, ela segue a distribuição binomial.
Passo 3. Escrevemos o valor-p como uma soma
Os resultados pelo menos tão extremos quanto acertos são e acertos.
Passo 4. Calculamos as duas probabilidades
Cada sequência de escolhas tem probabilidade . Há maneiras de acertar exatamente e só uma de acertar .
Passo 5. Somamos
Somamos as duas probabilidades.
Passo 6. Comparamos com o nível de significância
Comparamos o valor-p com .
Resposta
, então rejeita-se . Ao nível de , o cachorro escolhe a caixa certa com mais frequência do que o chute explicaria.
Exemplo 2: a máquina está pondo pouca farinha nos pacotes?
Uma máquina deveria encher pacotes com g de farinha em média, e o desvio padrão da massa é g. Um fiscal pesa pacotes e encontra média g. Teste, ao nível de , se a máquina põe, em média, menos farinha do que deveria. A decisão seria a mesma ao nível de ?
Passo 1. Escrevemos as hipóteses
Suspeitamos que a média seja menor que g, então o teste é unilateral.
Passo 2. Calculamos o erro padrão
Dividimos o desvio padrão pela raiz quadrada do tamanho da amostra.
Passo 3. Calculamos z
Contamos a quantos erros padrão a média da amostra está de g.
Passo 4. Calculamos o valor-p
Aqui, extremas são as médias pequenas, então precisamos da área à esquerda de . A tabela dá .
Passo 5. Comparamos com os dois níveis
Comparamos o valor-p com e com .
Resposta
. Ao nível de , rejeita-se : a máquina põe, em média, menos farinha do que deveria. Ao nível de , não há evidência suficiente para rejeitar - a decisão depende de α, e é por isso que α é escolhido antes do teste.
Sua vez
Garrafas de suco trazem mL no rótulo, e a máquina que as enche tem desvio padrão mL. Uma amostra de garrafas tem média mL. Teste, ao nível de , se a média é diferente de mL, para mais ou para menos.
Dicamostrar
O teste é bilateral: . Calcule o erro padrão e ; depois, para um positivo. Da tabela: .
Resoluçãotente resolver por conta própria primeiro
Passo 1. Escrevemos as hipóteses
Importaria tanto uma média alta demais quanto uma baixa demais, então o teste é bilateral.
Passo 2. Calculamos o erro padrão
Dividimos o desvio padrão pela raiz quadrada do tamanho da amostra.
Passo 3. Calculamos z
Contamos a quantos erros padrão a média da amostra está de mL.
Passo 4. Calculamos a área de uma cauda
Obtemos a área à direita de a partir do valor da tabela.
Passo 5. Multiplicamos por dois
Num teste bilateral, uma média igualmente afastada abaixo de mL também seria extrema, então contam as duas caudas.
Passo 6. Comparamos com o nível de significância
Comparamos o valor-p com .
Resposta
, então não há evidência suficiente para rejeitar . A amostra não mostra que a média é diferente de mL - mas também não prova que ela seja exatamente mL.
Erros comuns
- “O valor-p é a probabilidade de H₀ ser verdadeira.” Não: o valor-p é calculado supondo verdadeira. Ele diz quão surpreendentes seriam os dados se valesse, e não quão provável é . Um valor-p de não significa 2,1% de chance de Júlia estar chutando.
- “p > α prova H₀.” Não rejeitar não é o mesmo que provar. Com acertos em (), Júlia pode ter uma habilidade real, só que menor - um teste de copos é curto demais para mostrá-la.
- Esquecer o “pelo menos tão extremo”. O valor-p é uma cauda inteira, não um único resultado. Com acertos em , parece menor que , mas o valor-p é maior.
- Escolher α ou o tipo de teste depois de ver os dados. Os dois são definidos antes do teste. Escolhê-los depois, ou testar uma análise atrás da outra até alguma dar , torna um alarme falso mais provável.
- “Significativo” quer dizer “importante”. Um resultado significativo seria improvável se fosse verdadeira, mas o efeito em si pode ser minúsculo: numa amostra grande o bastante, até uma diferença muito pequena dá um valor-p pequeno. O tamanho do efeito é outra questão.
No ensino médio, no Enem e na faculdade
O teste de hipóteses não aparece na BNCC do ensino médio. Em probabilidade e estatística, as habilidades da BNCC falam em analisar amostras de pesquisas divulgadas pela mídia, planejar e executar pesquisas amostrais e calcular e interpretar medidas de tendência central e de dispersão (amplitude, variância e desvio padrão) - por exemplo, nas habilidades EM13MAT202 e EM13MAT316. A Matriz de Referência do Enem também não inclui testes: em estatística e probabilidade, ela lista representação e análise de dados, medidas de tendência central, desvios e variância e noções de probabilidade.
Na faculdade, o teste de hipóteses faz parte da inferência estatística. No livro aberto de Probabilidade e Estatística da UFRGS, uma tradução e adaptação do OpenIntro Statistics, ele aparece no capítulo “Fundamentos para Inferência”, depois da variabilidade das estimativas e dos intervalos de confiança.
Teste o que você aprendeu
Teste seus conhecimentos
Um teste dá , e o nível de significância é . Qual é a decisão?
O que significa ?
Uma moeda é lançada vezes e dá cara todas as vezes. Com e , qual é o valor-p?
Num teste z bilateral, sai , e a tabela dá . Qual é o valor-p?
O que é um erro tipo I?
Flashcards para revisão
Vire cada cartão e diga se você sabia a resposta. Os que você não sabia voltam para o fim do baralho. No guia Repetição espaçada, você descobre por que vale a pena revê-los daqui a alguns dias.
Flashcards
Pergunta
Resposta
O que é a hipótese nula ?
A afirmação da qual o teste parte: em geral “não há efeito” ou um valor determinado, como para quem está chutando.O que é o valor-p?
A probabilidade, supondo verdadeira, de um resultado pelo menos tão extremo quanto o observado.Quando se rejeita ?
Quando , com o nível de significância α escolhido antes do teste - muitas vezes .O que significa ?
Que não há evidência suficiente para rejeitar . Isso não prova que seja verdadeira.O valor-p é a probabilidade de ser verdadeira?
Não. Ele é calculado supondo verdadeira, então diz quão surpreendentes seriam os dados sob .O que é a região crítica?
Os valores da estatística de teste para os quais se rejeita - com copos e , .O que são os erros tipo I e tipo II?
Tipo I: rejeitar quando ela é verdadeira, com probabilidade no máximo α. Tipo II: não rejeitar quando ela é falsa.O que é o poder de um teste?
A probabilidade de rejeitar quando ela é falsa, .Como se calcula num teste para a média?
- no denominador fica o erro padrão .Como se obtém o valor-p de um teste z bilateral?
Dobra-se a área de uma cauda: para um positivo.
Fontes
Conferimos as informações desta página nestas fontes. Todas podem ser reutilizadas livremente: têm licença aberta ou não são protegidas por direitos autorais.
- UFRGS - Livro de Probabilidade e Estatística EAD (tradução e adaptação do OpenIntro Statistics), 4 Fundamentos para Inferência (hipótese nula e alternativa; não rejeitar H₀ não é aceitá-la; p-valor como probabilidade de dados pelo menos tão favoráveis a H₁ se H₀ for verdadeira; erros tipo I e II; nível tradicional 0,05, ou 0,01; testes unilaterais e bilaterais, com as duas caudas no p-valor bilateral; trocar o tipo de teste depois de ver os dados infla o erro tipo I; erro padrão; significância estatística versus prática) · CC BY-SA 3.0
- UFRGS - Livro de Probabilidade e Estatística EAD, 3.4 Distribuição binomial (probabilidade de k sucessos em n tentativas independentes) · CC BY-SA 3.0
- Barth, Lourenço - O P ainda tem valor?, Revista de Administração de Empresas, 2020 (valor-p não mede a importância de um efeito; efeito desprezível pode ser significativo numa amostra grande; p-hacking) · CC BY 4.0
- Andreu et al. - O valor de p é adequadamente interpretado pelos profissionais de terapia intensiva?, Revista Brasileira de Terapia Intensiva, 2021 (valor-p: resultado igual ou mais extremo que o observado; a falácia de tomá-lo como a probabilidade de H₀ ser verdadeira) · CC BY 4.0
- Lopes et al. - Bioestatísticas: conceitos fundamentais e aplicações práticas, Revista Brasileira de Oftalmologia, 2014 (hipótese nula de não haver diferença e hipótese alternativa; erro tipo I ou α e erro tipo II ou β) · CC BY 4.0
- MEC - Base Nacional Comum Curricular (BNCC), habilidades EM13MAT102, EM13MAT202, EM13MAT316 e EM13MAT406 (pesquisa amostral, medidas de tendência central e de dispersão; sem teste de hipóteses) · documento oficial
- Inep - Matriz de Referência para o Enem (conhecimentos de estatística e probabilidade: representação e análise de dados, medidas de tendência central, desvios e variância, noções de probabilidade) · documento oficial
- David M. Lane - Online Statistics Education, Introduction to Hypothesis Testing (em inglês: a probabilidade de acertar tanto ou mais num teste de degustação só chutando; Fisher e a história da senhora que provava chá) · domínio público
- Danielle Navarro - Learning Statistics with R, 13.1 The one-sample z-test (em inglês: z = (x̄ − μ₀)/(σ/√n); valores críticos 1,645, 1,96, 2,326 e 2,576) · CC BY-SA 4.0
- Wikipédia - Valor-p (probabilidade de um resultado pelo menos tão extremo quanto o observado, supondo H₀ verdadeira; não é a probabilidade de H₀ ser verdadeira) · CC BY-SA 4.0
- Wikipédia - Teste de hipóteses (região crítica, erro tipo I com probabilidade α, testes unilaterais e bilaterais) · CC BY-SA 4.0
- Wikipédia - Teste t de Student (usado quando a variância da população é desconhecida) · CC BY-SA 4.0
- Wikipedia - Lady tasting tea (em inglês: o experimento de R. A. Fisher com chá em The Design of Experiments, 1935) · CC BY-SA 4.0